A Saga de Vaelor
"Primathor amaldiçoou o sangue. Mas esqueceu de amaldiçoar a ambição que corre nele." — Período de Silêncio
Antes dos reinos. Antes das guerras. Antes que o primeiro sangue tocasse a terra — existia apenas Primathor, o Primeiro Pensamento. Do que veio depois, o mundo ainda sangra.
✦ Narrativa ✦
O mundo não foi diferente. Toda criação carrega, escondida dentro de si, a semente da própria ruína.
Capítulo 0
Toda criação carrega, escondida dentro de si, a semente da própria ruína. O mundo não foi diferente.
Antes dos homens, antes das guerras e antes que o primeiro sangue tocasse a terra, existiu apenas Primathor — o Primeiro Pensamento. Dele surgiu a primeira luz, um clarão solitário e eterno que rompeu o vazio absoluto. De sua essência nasceram os Nove Deuses Planetários, entidades que moldariam os céus, os mares e o destino da existência.
Entre todos eles, havia uma que Primathor amava acima de qualquer outro ser: Terra, o planeta vivo, a Mãe Primordial.
De Terra nasceram os Quatro Grandes Elementos: Ignothar, o Devorador de Luz, senhor das chamas impetuosas; Nyxthal, a Profundeza Silenciosa, guardiã das águas profundas; Vaelstrom, o Uivo do Nada, soberano dos ventos livres; e Sylvaryn, a Carne do Mundo, senhora das florestas eternas e da vida que brota do solo.
Foi Sylvaryn quem pediu a Primathor que criasse o Sol e a Lua, para que iluminassem e guardassem o mundo que ela tanto amava.
Nas sombras da criação, porém, algo começou a apodrecer.
Ignothar via as florestas verdes e sentia o ódio mais simples e mais antigo que existe: não queria o que Sylvaryn tinha. Queria apenas que não existisse. Nyxthal amava Sylvaryn da única forma que sabia amar — como as águas profundas amam o que nelas afunda: completamente, em silêncio, sem deixar voltar. Vaelstrom sentia nojo de tudo o que ela representava: raízes, permanência, coisas que ficam.
Os três deuses tornaram os humanos seus brinquedos. Costuraram chamas vivas em veias mortais, afogaram pulmões com o poder das profundezas, despejaram o uivo selvagem dos ventos em corpos frágeis. Criaram híbridos monstruosos — criaturas que gritavam enquanto suas peles ardiam.
Assim nasceram as primeiras guerras. O primeiro sangue derramado.
Consumidos pelo ciúme, os três arquitetaram algo ainda pior. Não escolheram o mais forte dos híbridos, nem o mais cruel. Criaram um novo — o último e o mais perfeito.
Kaelthar.
Não foi costurado às pressas, com fogo e gritos, como os outros. Os três o teceram com paciência de artesãos. Ignothar lhe deu o calor que afaga antes de queimar. Nyxthal lhe deu a calma das águas profundas, que afogam sem levantar espuma. Vaelstrom lhe deu a liberdade absoluta de quem não pertence a nada.
Por dentro, deixaram-no oco. Foi essa a sua obra-prima. Tudo o que entrasse em Kaelthar — afeto, promessa, calor — cairia nesse vazio para sempre, sem tocar o fundo.
Dizem que Kaelthar foi o primeiro híbrido que não gritou ao nascer. Abriu os olhos de predador, mediu os três deuses que o criaram, um por um, em silêncio — e sorriu.
Por dias e noites, ele cortejou Sylvaryn. Não com presentes. Nem com amor. Ele a cortejou com algo que nem mãe, nem irmãos, nem a criação inteira haviam lhe dado: curiosidade. Fazia perguntas sobre coisas pequenas — e ouvia as respostas até o fim, como se o mundo inteiro coubesse na voz dela.
Todos amavam Sylvaryn pelo que ela fazia crescer. Kaelthar fingiu ser o primeiro a amá-la pelo que ela era.
E Sylvaryn, que conhecia todo o amor do mundo menos esse, entregou-lhe o coração, o corpo e a confiança.
Na noite da traição, o Sol ocultou o rosto atrás das montanhas e a Lua chorou prata sobre os mares.
Sylvaryn acordou quando ele se moveu. Viu o rosto dele acima do dela — e leu o que havia naquele rosto antes que a lâmina aparecesse. Ficou imóvel. Colocou a mão sobre o ventre. Foi o único gesto que fez.
E cravou a lâmina em seu coração.
As florestas silenciaram. Os mares recuaram. Até o Sol pareceu hesitar.
Do sangue que caiu na terra brotou uma semente que nenhum deus ousou arrancar.
A voz de Primathor ecoou pelos céus como um trovão que não termina:
Em sua ira, Primathor acorrentou os três deuses traidores e os lançou em prisões esquecidas, além do alcance dos mortais.
Mas, mesmo diante da morte da filha, Terra ainda ouviu o coração da criança pulsando dentro do ventre de Sylvaryn. A última centelha divina ainda vivia. A Mãe Primordial salvou a herdeira de sua filha caída e a entregou aos humanos.
E para impedir que outro sangue divino fosse derramado, os Nove Deuses Planetários ofereceram fragmentos de seus próprios poderes. Assim nasceram as Nove Armaduras Planetárias — relíquias sagradas forjadas para proteger a descendência da criança salva.
Terra nunca mais falou com os outros deuses depois daquela noite. Recolheu-se ao próprio corpo — que é o mundo — e fez do seu luto as estações: a cada ano cobre tudo de flores lembrando a filha, e a cada ano deixa tudo morrer de novo, porque lembrar dói.
Os homens chamam isso de primavera e inverno. Não sabem que caminham, todos os dias, sobre uma saudade.
As eras passaram. Reinos nasceram e morreram. A linhagem sobreviveu. Os homens acabaram lhe dando um nome: Casa Vaelor.
E, no coração de uma de suas descendentes, algo que nunca encontrou repouso voltava a respirar. O primeiro pecado nunca havia morrido — apenas esperava um novo coração para pulsar.
✦ Elenco ✦
Aqueles que carregam o peso de um pecado que aconteceu antes de eles nascerem.
Herdeira da Casa Vaelor
Descendente da linhagem que carrega nas veias o sangue do primeiro pecado. Lê pessoas como se fossem textos. Não demonstra o que sente — demonstra o que quer que você acredite que ela sente.
"Portadora do Colar Rubro Maligno — que concede poder e corrompe a alma."
Segundo Filho de Vhal-Kor
Chegou montado numa criatura que fazia os cavalos recuarem. Guerreiro de campanha, não de salão. Usa armadura que foi à guerra de verdade: as marcas estão no metal, não na postura.
"Domador de raptores. Não diz o que pensa. Deixa que o silêncio trabalhe por ele."
Senhor de Vhal-Kor
Construiu Vhal-Kor das cinzas das Terras do Fogo — tribos sem nome nos registros imperiais. Provou que o Império estava errado, e teve o cuidado de fazer isso de um jeito que o Império não pudesse simplesmente punir.
"Fala pouco em público. Cada palavra foi escolhida antes de ser pronunciada."
Filho de Jorek
Porte esguio dentro da armadura escura. Vinte e poucos anos e já a mesma economia de palavras do pai. Guarda conclusões. Mais perigoso por isso.
"Observa mais do que fala. O que não diz tem mais peso do que o que a maioria diz."
A Imperatriz
Governa o Império com a consciência de que o poder tem dois componentes: o que você concede e o que ninguém pode tirar de você. Olhos dourados que ela usa como outros usam armas: com precisão e sem calor.
"Nunca se levanta quando alguém entra. Faz a outra pessoa sentir o peso de ter de se aproximar."
O Guardião
Sai das sombras como quem não se move de lugar nenhum — apenas aparece onde precisa estar. Magro da forma que algumas armas são magras: não pela ausência de substância, mas porque tudo que era desnecessário foi removido.
"Não luta contra o golpe. Luta contra a intenção, instantes antes que o corpo a execute."
A Origem da Maldição
Criado pelos três deuses traidores com paciência de artesãos — beleza por fora, vazio por dentro. Foi o primeiro híbrido que não gritou ao nascer. Abriu os olhos de predador e sorriu.
"Fingiu ser o primeiro a amar alguém pelo que ela era. Foi a mentira mais perfeita que o mundo já ouviu."
A Carne do Mundo
Filha predileta de Terra. Senhora das florestas eternas. Nomeava o que os outros não nomeavam — o musgo, a pausa entre o último pássaro da tarde e o primeiro da noite. Disse que as coisas precisam de nomes para durar.
"Quando percebeu o que estava para acontecer, colocou a mão sobre o ventre. Foi o único gesto que fez."
✦ Mundo ✦
Os territórios do continente de Vaelor — cada um com seu poder, sua história e seu preço.
Capital Imperial
"Ouro e fogo contra pedra negra."
O coração do Império. Uma cidade que nunca apaga as luzes. De longe, Vaela brilha como sempre. De perto, quem conhece seus corredores sabe que esse brilho pode parecer doentio — carne lustrosa cobrindo uma ferida aberta. É daqui que a Imperatriz governa. É daqui que as decisões que afetam onze domínios são tomadas em salas de pedra negra, à luz de candelabros, sem arauto e sem registro.
Além da Fronteira
"Terra dos gigantes ancestrais. O horizonte sul sangra para o céu."
No horizonte sul, o céu tem uma qualidade avermelhada permanente que não é aurora nem incêndio. São as montanhas de Vhal-Kor sangrando — rios de lava descendo devagar pelas encostas, fendas luminosas cortando a terra, garras contra pedra no escuro. Os livros não fazem justiça. Primeiro vem o som. Território conquistado além da fronteira imperial — o Império ainda não sabe bem como chamá-lo, porque chamá-lo de território é admitir que perdeu.
As Primeiras Raízes
"Alimenta metade do continente."
Cereais, gado, madeira. As colheitas que impedem que onze domínios passem fome em anos ruins. O poder de Terravyn não está nas muralhas — está no fato de que sem ela, o Império passa fome. No coração mais fechado do domínio, nas Montanhas do Tigre, existe a aldeia de Ishkara — pequena demais para aparecer nos mapas de Vaela. Afastada demais para interessar aos mercadores de Rethis.
Os Caminhos
"Quem controla as estradas, controla o fluxo do mundo."
O domínio que controla as rotas comerciais do continente. O Titanus de Rethis não precisa de exércitos — precisa apenas de portagens e de paciência. Vhal-Kor foi esculpido de território que pertencia a Rethis — terra que o Império havia considerado pacificada. O que cresceu ali provou que o Império estava errado.
As Profundezas
"Quem controla as rotas marítimas, controla o que o mundo não vê."
O domínio das águas. O Titanus de Nythara governa as rotas marítimas — o comércio que viaja pela superfície do mar e tudo o que passa por baixo dela. Um poder que opera em silêncio, como as próprias profundezas — nomeado em honra a Nyxthal, a deusa que amava em silêncio e sem deixar voltar.
A Coroa
"Onde insultos têm peso de pedra."
Território de nobre linhagem e julgamentos públicos. É em Orialis que acusar alguém de ter sangue manchado pode ser o pior golpe que se desfere — não porque seja verdade, mas porque é impossível provar que não é. A memória de Kaelthar sobrevive aqui como o maior insulto que se pode lançar contra uma família.
✦ Atlas ✦
"In Unitate Fortitudo, In Imperio Aeternitas."
O Império de Vaelor estende-se por treze domínios — cada um governado por um Titanus, cada um portador de uma Armadura Planetária forjada pelos Nove Deuses.
✦ Artbook ✦
Imagens do universo SAICONS — cenas e personagens do livro.